Daqui a um mês, em 9 de outubro, completa 40 anos que o general Emílio Garrastazu Médici esteve em Altamira. Nesse dia, em 1970, ele chegou à cidade por volta das 11 horas da manhã. Fazia um calor de 40 graus. Foi recebido por 3 mil habitantes, curiosos e temerários, porém, para a imprensa da época, "entusiasticamente". Hasteou a bandeira em um mastro improvisado. Ouviu a banda militar tocar o hino. Viu um trator derrubar uma imponente árvore de 50 metros de altura - achou vibrante. Logo depois, tirou o paninho que cobria a placa. "Nestas margens do Xingu, em plena selva amazônica, o Sr. Presidente da Republica dá início à construção da Transamazônica, numa arrancada histórica para a conquista deste gigantesco mundo verde".
Há um mês e meio, em 22 de junho, Lula esteve em Altamira. Também recebido às pompas, com multidões orgulhosas de sua presença - os movimentos sociais que queriam protestar foram dispersos por estratégias de deslocamento da comitiva presidencial (encontro realizado em um local onde os manifestantes não conseguiram chegar) e anúncio súbito da presença do chefe de estado - impedindo que comunidades mais distantes se deslocassem de barco a tempo pelo rio Xingu. Ele veio assinar o contrato para a construção da usina hidrelétrica Belo Monte - também anunciou o asfaltamento, ao menos em parte, da Transa. Alguns dias depois, a cidade foi tomada por uma manifestação de diversos povos indígenas contrários à obra.
Uma estrada, para quem vive perto dela, é uma obra vital. Facilita a vida. Os deslocamentos. O problema, no caso da Transa, é que a estrada serviria para um projeto de colonização que trouxe, além de muita gente, um caos tremendo para a região. Violência, devastação, genocídio de índios arara. Não fosse o movimento social organizado pelos colonos migrantes nos anos 1980, do qual emergiram lideranças políticas que agora estão no poder no estado do Pará, projetos hoje em andamento como produção orgânica de cacau seriam impensáveis. Era madeira e pasto. Terra sem título, conflito com os índios e com outros posseiros. Tudo isso, isolados nos travessões - travessões são as estradas vicinais que partem perpendicularmente da principal.
A transformação que a estrada deixa na geografia é um risco visto do satélite. Com o deslocamento da população migrante, abre-se para os lados como uma espinha de peixe. E transforma-se num arco de devastação arrasando a paisagem original.
Uma usina hidrelétrica produz energia renovável. As águas que escorrem pelo rio, ao passar pelas turbinas, geram milhões de megawatts de energia. Essa energia pode se direcionar para os grandes centros urbanos, ou para a indústria siderúrgica que consome também milhões de megawatts. As transformações que uma usina produz em um rio são de um cálculo difícil. As cachoeiras somem, vem um lago, a água muda a temperatura. Como se conhece muito pouco dos peixes amazônicos - por exemplo, ninguém faz a menor ideia de como estimar a população dos grandes peixes-boi, nem se ele faz ou não rotas migratórias - não se sabe o que vai acontecer com o rio, que funciona como uma veia na floresta. Mas além das críticas ecológicas, inúmeras, Belo Monte tem sido bastante combatida pelas populações tradicionais que ocupam a região, como índios e ribeirinhos - no entanto, apoiada por muitos dos colonos que vieram se estabelecer aqui na época da Transamazônica, e pela leva de novos migrantes que começa a chegar.
O anúncio da construção de Belo Monte em Altamira, 40 anos depois do lançamento da construção da Transamazônica, vem reavivar o mito do progresso em meio à selva, aquele do "Brasil grande". Um tipo de progresso que marca a região, com parca distribuição de renda, desigualdades e cicatrizes de violências expostas. Enquanto aguarda a chegada de 80 mil pessoas, atrás do sonho de um trabalho digno com as promessas de investimentos vindas pela usina, a região começa a sangrar a floresta que sobrou. A maioria do desmatamento de julho de 2010, segundo dados do Imazon, ocorreu no Pará (51%), sendo que o grande foco foram municípios ao longo da Transamazônica.
Mas se Altamira e região foram palcos do surgimento de expressivos movimentos sociais da Amazônia, que souberam se readaptar às difíceis condições de vida impostas pela migração nos tempos da ditadura, vai precisar surgir uma nova organização participativa para enfrentar os desafios do progresso forjado, agora, pela usina - com a nova leva de migrantes. Nos últimos 40 anos, Altamira, uma cidade vibrante, segue sendo o centro das atenções e de transformações na Amazônia.
*Felipe Milanez é jornalista e advogado, mestre em ciência política pela Universidade de Toulouse, França. Foi editor da revista Brasil Indígena, da Funai, e da revista National Geographic Brasil, trabalhos nos quais se especializou em admirar e respeitar o Brasil profundo e multiétnico.
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